Viriato (179-139 Bc.)
Após a segunda guerra púnica* (218-201 a.C.), Roma dominava o Leste e o Sul da Península Ibérica. As zonas Oeste e Norte eram ainda dominadas por populações indígenas (iberos) e celtas. Uma federação de tribos lusitanas, que habitavam as regiões mais ocidentais, resistiu à penetração romana, sob a liderança brilhante de Viriato, de 147 a 139 a.C..
O APARECIMENTO DE VIRIATO
As batalhas entre tribos lusitanas e o império romano tiveram início cerca do ano 193 b.C..
Viriato é citado por Diodoro ( XXXIII ) que diz que Viriato "nascera na Lusitânia, cerca do Oceano. Supôe-se que Viriato, filho de Comínio, terá nascido na localidade de Aritius Vetium (actual Alvega - Abrantes). Dizem os antigos biógrafos, como Orósio, Diodoro, Lívio e outros, que Viriato, na sua mocidade, terá tido de algum modo acesso a vários aspectos culturais e experiências para além das actividades de pastor de rebanhos e caçador. Estas mais valias permitiram que desenvolvesse a guerra de guerrilha com estratégias e tácticas sofisticadas chegando mesmo, mais tarde, a “provocar” um diálogo positivo com os representantes de Roma e alcançar, inclusive, a designação de "Amicus Populi Romani", ou seja, aliado em paz com Roma.
Lucílio chamou-lhe o "Aníbal bárbaro", igualando o seu génio militar ao do grande general cartaginês. A sua estratégia foi a luta de guerrilhas muito popular com os guerreiros hispanos, mas usada por Viriato não já só para a defensiva, como também para o ataque.
Em 150 a.C., o pretor romano Sérvio Sulpício Galba aceita uma proposta de paz, em que se incluía o desarmamento dos lusitanos. No entanto, Galba não cumpriu a sua parte do acordo, procedendo ao massacre de cerca de 10 mil lusitanos, em que mais de 30.000 lusitanos foram assassinados (homens, mulheres e crianças foram vendidos como escravos nas Gálias). Viriato, afortunadamente, foi um dos poucos sobreviventes a esta chacina.
Viriato surge na História quando, em 147 a.C., se opõe à rendição dos lusitanos a Caio Vetílio, que os tinha cercado no vale de Betis, na Turdetânia. Viriato lembra aos seus companheiros a traição anterior de Galba, demonstrando-lhes que os romanos eram falsos, sem palavra e que já os haviam atraiçoado miseravelmente. Conseguindo convencê-los é eleito chefe.
A fama de Viriato como guerreiro e estratega foi crescendo entre as várias tribos lusitanas permitindo-lhe tornar-se o líder efectivo de uma aliança de tribos lusitanas que pela primeira vez na história se unem por um objectivo comum.
Os romanos são derrotados no desfiladeiro de Ronda que separa a planície do Guadalquivir da costa marítima da Andaluzia, provocando nas fileiras inimigas uma espantosa chacina, tendo morrido o próprio Vetílio.
Em 145 a.C. Quinto Fábio Máximo, irmão de Cipião "O Africano", é nomeado cônsul na Hispânia Citerior e é encarregado da campanha contra Viriato ao comando de duas legiões. Ao princípio tem algum êxito, mas Viriato recupera e em 143-142 a.C. volta a derrotar os romanos em Baecula obrigando-os a refugiarem-se em Córdova.
Simultaneamente, seguindo o exemplo do chefe lusitano, as tribos celtibéricas da Hispânia Citerior (Belos, Titos e Arevacos) revoltam-se contra as prepotências romanas iniciando uma luta que só terminará em 133 a.C., com a queda de Numância.
Em 140 a.C. Viriato derrota o novo cônsul Fábio Máximo Serviliano matando mais de 3.000 romanos, encurralando o inimigo e podendo destroçá-lo; no entanto, deixou Serviliano libertar-se da posição desastrosa em que se encontrava em troca de promessas e garantias tais como a de os lusitanos conservarem o território que haviam conquistado. Em Roma, esse tratado de paz foi mais tarde considerado humilhante e vexatório; como consequência, o Senado romano volta atrás na sua palavra, e declara guerra a Viriato.
A destruição de Cartago, o principal centro de oposição ao poder de Roma, terá sido um elemento importante na viragem da guerra, pois Roma pôde reforçar as suas tropas nas restantes frentes, incluindo claro, a frente ibérica.
Em consequência da atenção e poder militar concentrado de novo na Ibéria, para além da desmilitarização lusitana que entretanto aconteceu, as tropas romanas conseguem levar Viriato a refugiar-se a norte do rio Tejo num lugar denominado "monte de Vénus" (presumivelmente localizado entre Cáceres e Badajoz). Face aos avanços do general romano Quinto Servílio Cipião, Viriato, em posição difícil, envia três emissários (Audax, Ditalco e Minuro) para negociar a paz.
Em 139 a.C., Viriato foi assassinado durante o sono por estes seus emissários. Após o assassinato estes refugiaram-se junto do procônsul romano Servílio Cipião reclamando o prémio prometido. No entanto, o procônsul ordenou a execução destes, tendo os três ficado expostos em praça pública com os dizeres "Roma não paga a traidores".
O exército lusitano, chefiado por Táutalo, até então o braço direito de Viriato, tentou ainda uma incursão contra os territórios do Sul mas foi vencido.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a magrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
Fernando Pessoa, in Mensagem
Este que vês, pastor já foi de gado;
Viriato sabemos que se chama,
Destro na lança mais que no cajado;
Injuriada tem de nome a fama,
Vencedor invencíbil, afamado.
Não tem com ele, não, nem ter puderam,
O primor que com Pirro já tiveram;
Depois da morte de Viriato, Decius Junius Brutus conseguiu finalmente marchar para Norte, através da Lusitânia central e dominar a Gallaecia. Começa então, efectivamente, a ocupação romana do extremo ocidental da Hispânia.
Após a governação de Júlio César o Imperador Augusto funda a cidade de Emerita Augusta (hoje Mérida) no ano 25 a.C., tornando-a a capital da província romana Lusitania que fora por ele constituída no ano 5 a.C..
A luta lusitana pela independência continuaria mais tarde através do apoio a Sertório passando também pela criação de um estado lusitano na zona oeste da península ibérica no séc. I b.C..
A identificação de Portugal com a Lusitania e dos antecessores dos portugueses como sendo os lusitanos (ideia que está na origem do título dos "Lusíadas" de Camões), é hoje largamente ignorada mas a criação da Lusitania terá certamente tido influência na formação de um reino independente chamado Portugal vários séculos mais tarde.
Os Portugueses consideram este seu remoto antepassado lusitano uma das mais belas e sugestivas figuras simbólicas do espírito de independência, de estóica heroicidade e de sacrifício total pelas liberdades pátrias. Em 1940 foi erigida em Viseu uma estátua à memória de Viriato.
A Espanha considera também Viriato (e é correcto, pois Viriato é um herói hispano muito anterior à formação das nacionalidades ibéricas) como seu antepassado tendo anteriormente feito o mesmo, erguendo-lhe uma estátua em Zamora, que contém na base a sugestiva legenda:
TERROR ROMANORUM.
(Condensado de Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão )